segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eça de Queiroz, França e Inglaterra, ou Nova Carta de Bristol...


Em 7 de Junho de 1885, fez portanto 126 anos, Eça de Queiroz escreveu a Mariano Pina (director da revista Ilustração) uma carta, em que se refere de novo à França e à Inglaterra, a propósito de Zola e Victor Hugo (a carta de Eça que prometi aos meus amigos que gostam da Inglaterra). Eis alguns trechos:

“Meu caro Pina
Mil agradecimentos pelos jornais franceses e pela Ilustração com a nossa visita a Zola. Como Você apanhou bem todas as coisas características que ele disse e em que se pintou a si próprio, tal como ele é, largo, fecundo, luminoso e entusiasta! Eu desejei mandar-lhe, em reconhecimento da sua amabilidade, uma pequena coisa sobre Hugo. Mas confesso que, tendo tomado a pena, não achei nada, neste momento, a dizer de original e de justo. Eu, como Você sabe, sou um Hugolatra: tenho a paixão do mestre, e nesses dias, depois da morte dele, não me sentia capaz de o criticar: apenas podia deitar flores sobre o seu caixão. Ora nisto não havia interesse para o público; flores, era o que todo o mundo estava deitando sobre o catafalco dos Campos Elísios, com mais ou menos sinceridade; e flor mais ou flor menos, nada importava para o brilho da apoteose. O que seria interessante, era um estudo sobre a influência de Hugo na minha geração - não direi já sobre a humanidade, isso levar-me-ia muito longe. Ora justamente a serenidade crítica para fazer tal estudo é que me faltava, como faltou a todos os Hugolatras (…)

Estão engraçados as seus comentários à carta de Abel Acácio [Abel Acácio Botelho, escritor]. Eu não conheço esse rapaz, mas inquestionavelmente o patriotismo dele é simpático e o seu grito em pró da língua portuguesa muito justo. Somente, o que é curioso, é que esse patriota que pede com violência que se não escrevam estrangeirices - escreve ele próprio, a julgar pela carta, não em bom português, mas em mau francês! É das coisas mais cómicas que eu tenho visto. E enquanto às ideias que ele tem do lugar da França na civilização, são de um cavalheiro de Trás-os-Montes ou do fundo do Alentejo, que, da França, só sabe que de lá chegam todos os meses os figurinos, pelos quais a sua senhora corta os casabeques. As ideias dele sobre a Inglaterra não são menos singulares. E a este respeito, deixe-me dizer-lhe que Você também, a propósito da Inglaterra, tem às vezes a opinião chauviniste du Boulevard... O francês, que odeia a Inglaterra, afecta considerá-la apenas como um país comercial, sabendo no fundo perfeitamente que ela é um grande país intelectual. Mas isto, no francês, é apenas antipatia de raça que, na sua exageração, finge ignorar as grandes qualidades da nação rival. Somente Você, e outros muitos, tomam isso a sério - e imaginam que a Inglaterra não exporta senão calçado e carvão!! A Inglaterra exporta sobretudo ideias. E a maior parte exporta-as para a França. A Ciência, aí, está vivendo da ideia da evolução - que para lá exportou Darwin, que é inglês. A filosofia, aí, está vivendo das ideias que para lá exportou Herbert Spencer, que é inglês. A política está vivendo da ideia do oportunismo, que para lá exportou a Inglaterra. Daudet é um discípulo de Dickens. O naturalismo na pintura, sobretudo na paisagem, outra exportação inglesa. A economia política está vivendo do que para lá exportou Stuart Mill. Um dos primeiros romancistas do século é George Elliot, um dos primeiros criticos, Ruskin, etc., etc., etc. O papel não chega mais, mas podia assim encher folhas. Eu detesto a Inglaterra, mas isso não impede que ela seja, como nação pensante, talvez a primeira. Taine disse a segunda... mas Taine era francês.
Amigo do c.
Queiroz”.

Sem comentários:

Enviar um comentário