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terça-feira, 8 de maio de 2012

Alves Redol, Isso é que eram tempos!


Os Reinegros, romance de Alves Redol, foi publicado em 1972, três anos depois da sua morte. O ambiente gira em torno da transição da monarquia para a república e da consolidação do novo regime.
O autor coloca este diálogo nas vésperas da implantação da República, há portanto cerca de 103 anos, e bem poderemos nós colocá-lo em outro tempo, pois há textos (e autores) que permanecem para sempre:

“O Sr. Almeida andava cada vez mais fona e a sua rabugice satisfazia-se obrigando os empregados a trabalhar sem conta. Inventava serviços para não os ver parados, ainda inconformado com o descanso que, desde meados de 1907, lhes tinha de conceder, relembrando, a propósito de tudo e de nada, o início da sua carreira comercial.
- E isso é que eram tempos. O patrão era mais do que um pai. Não se dava um passo sem lhe pedir um conselho e havia respeito e disciplina. O respeito é uma coisa muito bonita, fique sabendo. Quando o patrão falava, o empregado punha os olhos no chão e ouvia tudo; e levava a sua estalada a tempo, se isso era preciso, nem que tivesse ido já à vida militar. Assim é que se faziam homens para o balcão. Um empregado, quando saía duma casa, sabia tudo o que era preciso para ser um bom comerciante. Poupado, trabalhador... Agora?!... Pedem descanso ao domingo depois do almoço, se têm de fazer serão até às duas horas já mostram má cara e até conspiram contra o regime. Eu bem percebi na cara dos meus a satisfação pelo crime do Terreiro do Paço. Regicidas!
- Mais a grande maioria dos comerciantes é republicana, lembravam-lhe alguns amigos a quem falava do desaforo.
- Andam todos enganados. Se eu viver, hão-de dizer-me quem tem razão. Olá se hão-de! Mas já será tarde... Que o regime está firme! O regime não precisa do povo para coisa nenhuma. Pessoas de bem e de respeito é que se querem com a causa. Mas, apesar disso, irrita-me... Lembro-me do tempo em que o patrão entregava o voto e o empregado obedecia. E, se não obedecesse...".

sábado, 10 de dezembro de 2011

Alves Redol, Há revolução na Alemanha!


Em Novembro de 1972, fez portanto 39 anos, foi publicado o último romance de Alves Redol (1911-1969), Os Reinegros, cuja acção se situa desde os últimos anos da Monarquia até aos confrontos de Monsanto, em 1919. Eis dois dos últimos trechos:

“As greves parciais não cessavam e o povo começava a cansar-se. Entre os salários e o custo da vida, aumentava o abismo, e só um grande movimento total poderia opor-se à ganância de uns tantos. Promoviam-se assembleias nos sindicatos, para ordenar os esforços de todos, realizavam-se comícios de exaltação e propaganda da greve geral. As prisões enchiam-se. A pneumónica alastrava, numa ceifa aterradora. Os cadáveres ficavam à porta dos cemitérios, esperando vez. Famílias inteiras desapareciam, aldeias despovoavam-se. Não bastavam os transportes usuais para carregar os mortos. Era ainda o luto da guerra.
Os sinos das igrejas calavam-se, para que os doentes não dessem conta da mudança trágica da morte. Faltavam médicos - não havia remédios. Nos campos de batalha os soldados caíam - o fim era uma interrogação, preocupava todos.
QUANDO ACABARÁ?
(…)
*
Houvera o alarme, mas três dias depois a notícia confirmava-se. Às dez horas da manhã todos os navios salvavam com vinte e um tiros. Os sinos das igrejas voltaram a repicar; as sereias dos navios e das fábricas encheram a cidade daquela nova, enquanto as ruas transbordavam de uma multidão exaltada, que via no fim da guerra o nascer de uma outra vida.
- O armistício! O armistício!
VIVA A FRANÇA! VIVA A INGLATERRA!
VIVA A REPÚBLICA!
O Século e o Notícias publicavam edições extraordinárias.
Grupos cantavam pelas ruas o hino nacional e todos confraternizavam do mesmo entusiasmo - burgueses e pés-descalços, velhos e crianças! Abraçavam-se desconhecidos; criavam-se amigos num olhar e num viva. Os cafés, as tabernas e os restaurantes enchiam-se de gente que vitoriava o acontecimento com ceias. Os pobres iam para as bichas receber o bodo; nos mercados as vendedeiras desfaziam-se, por qualquer preço, do que tinham nos lugares.
VIVA A FRANÇA!
Havia bandeiras pelas janelas e nas mãos de populares que percorriam a cidade, roucos de gritar e exuberantes de júbilo.
- Há revolução na Alemanha. Acabou-se tudo.
As mulheres choravam de alegria, consolando as que tinham os maridos ou os filhos mobilizados. E as crianças, com carapuços de papel na cabeça, imitavam os cornetins das marchas militares, marcando passo, em filas, à voz de generais que escolhiam entre os que tinham espada.
- Acabou a guerra!”.

Ver aqui o essencial sobre Alves Redol: http://www.alvesredol.com/intro.htm