domingo, 15 de abril de 2012

Herculano, Entre o presente e o passado...


Em Maio de 1854, vai fazer 158 anos, Alexandre Herculano publicou o primeiro volume (Tomo I) da sua obra História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. No Prólogo, o autor situa o seu trabalho no contexto da sua própria época e da sua participação no triunfo da liberdade em Portugal. Apesar das dificuldades e dos caminhos censuráveis dos seus contemporâneos, Herculano nunca perde a perspectiva da História, na comparação com os tempos anteriores, que ele persistentemente procura trazer à memória.
A certo passo, diz o seguinte nesse Prólogo:

“Felizmente, no meio das loucuras do terror, muitas almas fortes, muitas cabeças inteligentes têm sabido conservar frio o ânimo para não abdicarem o senso comum. Nação pequena e que a Europa desconsidera ainda, pela ideia que faz dela, à vista de um passado não mui remoto, temos nesta parte dado mais de um exemplo de alta sabedoria a algumas das maiores nações. A história contemporânea há-de prová-lo. Creia-nos o país, a nós que não estamos costumados a lisonjear-lhe vaidades pueris ou preocupações insensatas e que, impassivelmente, lhe havemos dito sempre o que reputamos ser verdade. No meio das nossas misérias morais, e não são elas nem pequenas nem poucas, a minoria liberal que tem traído as suas doutrinas é por mais de um modo insignificante. (…)
Todavia, a civilização, tornando cada vez mais íntimo o trato das nações entre si, faz necessariamente actuar as ideias de umas sobre as outras, e o homem é, ordinariamente, mais propenso a contentar-se das ideias alheias do que a reflectir e a raciocinar. Em certa esfera, e até certo ponto, a reacção geral tem representantes entre nós. Cumpre combatê-la, não para convencer aqueles que sempre amaram o passado e nunca negociaram com as suas crenças, porque esses respeitamo-los; mas para fortificar na fé liberal os tíbios do próprio campo e premuni-los contra as ciladas dos trânsfugas. Este intuito não é só nosso; é de todos os homens leais, de todos os amigos sinceros de uma justa liberdade.
Levados pelas nossas propensões literárias para os estudos históricos, era, sobretudo, por esse lado que podíamos ser úteis a uma causa a que estamos ligados, rememorando um dos factos e uma das épocas mais célebres da história pátria; facto e época em que a tirania, o fanatismo, a hipocrisia e a corrupção nos aparecem na sua natural hediondez. Quando todos os dias nos lançam em rosto os desvarios das modernas revoluções, os excessos do povo irritado, os crimes de alguns fanáticos, e, se quiserem, de alguns hipócritas das novas ideias, seja-nos lícito chamar a juízo o passado, para vermos, também, aonde nos podem levar outra vez as tendências de reacção (…)”.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Abrilada de 1961, Um fracasso anunciado…



No dia 13 de Abril de 1961, faz hoje 51 anos, os altos comandos militares, dirigidos pelo general Botelho Moniz, ministro da Defesa, levaram a efeito uma tentativa de golpe de Estado, sem êxito, que ficou conhecida por “Golpe Botelho Moniz” ou por “Abrilada” de 1961.

O “Golpe Botelho Moniz” foi uma tentativa de golpe palaciano, um pronunciamento militar para impor uma solução política para o Ultramar no sentido da autodeterminação.
A acção começou a 11 de Abril, quando o Exército entrou de prevenção. Kaúlza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica, sem autorização superior, respondeu e deu a mesma ordem à Força Aérea. No dia seguinte, Salazar ordenou ao ministro da Marinha, Quintanilha Dias, que pusesse a Marinha de prevenção.
Entretanto, Botelho Moniz e Almeida Fernandes, ministro do Exército, forçaram uma reunião com Américo Tomás que, numa estratégia de ganhar tempo, só os recebeu por volta da meia-noite. A reunião correu mal para Botelho Moniz, que se chegou a travar de razões com Almeida Fernandes à frente de Tomás.
Após esta reunião, Tomás comunicou por carta a Botelho Moniz a sua intenção de reiterar a sua confiança em Salazar.
Depois de todo este tempo perdido, Botelho Moniz convocou, para 13 de Abril às 17 horas, uma reunião na Cova da Moura, sede do Estado-Maior General, com os altos comandos das Forças Armadas, incluindo os comandos das Regiões Militares, para decidir a passagem à acção. Toda os comandos foram avisados desta reunião, até Kaúlza, que, por sua vez, avisou Américo Tomás e o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, regressado nesse dia do estrangeiro.
Às 15 horas do dia 13 de Abril os golpistas foram surpreendidos pelo contra-ataque de Salazar ao ouvirem na Emissora Nacional a leitura de um comunicado dando conta da demissão do ministro da Defesa e dos outros membros do governo envolvidos.
Quando a reunião se realizou, às 17 horas, já foi, formalmente, uma reunião conspirativa e clandestina. O marechal Craveiro Lopes compareceu a esta reunião com uma mala com o seu uniforme de gala para fazer uma comunicação ao país, mas era tarde de mais. O golpe tinha falhado. Seguiram-se treze anos de guerra nas colónias.

A equipa militar que acabava de cair fora nomeada no rescaldo da campanha de Humberto Delgado, em 1958, quando Botelho Moniz substituiu Santos Costa na pasta da Defesa Nacional. Esta equipa envolveu-se numa mudança militar, com base num conceito de defesa completamente diferente, tendo em conta as novíssimas ameaças que pairavam sobre as colónias portuguesas.
A equipa do Exército era chefiada pelo ministro Almeida Fernandes e pelo seu subsecretário de Estado, Francisco da Costa Gomes.
Num dos primeiros documentos que elaboraram, datado de 24 de Junho de 1958, para servir de directiva básica à reestruturação do Exército, procuraram sistematizar, muito sinteticamente, mas de forma ousada, as condicionantes de partida. No que dizia respeito à “atitude das Forças Armadas perante a situação política vigente”, os autores são muito claros: “As Forças Armadas mantêm-se, por disciplina e sensatez, coesas e prontas a reprimir alterações da ordem pública. No entanto, não é o mesmo o espírito dos diversos escalões.
Nos oficiais, para cima de Major, pode dizer-se que a maioria é simpatizante com a situação política vigente. Pelo contrário, nos restantes oficiais, nos sargentos e nas praças readmitidas é quase geral o descontentamento. Crê-se que muito poucos subalternos, sargentos e praças tenham votado no candidato da União Nacional”.
Estava assim demonstrado que não se desconhecia a situação e que haveria muito trabalho a fazer. Mas para que não restassem dúvidas sobre os motivos que conduziram a esse ponto, o documento aponta depois as “Causas da situação do país perante a situação política vigente”, e que eram, em suma – “Pouco crédito que os quadros da actual situação política merecem ao país; Pouca eficiência do governo; Mau funcionamento dos Serviços Públicos; Disparidade de nível de vida das diversas classes da população; Deficiente preparação da juventude”.
O confronto com o regime era, portanto, uma questão de tempo!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

La Lys, A Batalha Portuguesa


No dia 9 de Abril de 1918, faz hoje 94 anos, a Alemanha levou a efeito uma grande operação sobre a frente do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.), na região da Flandres, acção que ficou para a história portuguesa como a Batalha de La Lys. As baixas portuguesas foram muito altas, com 398 mortos e 6585 prisioneiros.

Analisando a situação que a força portuguesa viveu, podemos dizer que as condições de permanência do C.E.P. na frente se degradaram muito no início de 1918. Por um lado, as tropas continuavam nas linhas da frente quase sem rotação, por outro a actividade militar na zona intensificou-se de forma gradual mas constantemente. O mês de Março foi extremamente penoso para as unidades portuguesas. O número de combates em que unidades portuguesas se viram envolvidas foi muito superior ao habitual. Houve combates em 2, 7, 9, 12 e 18 de Março, para além de pequenas escaramuças e contínuos bombardeamentos de artilharia.
O moral das tropas portuguesas diminuía à medida que se percebiam sinais de maior actividade nas linhas alemãs, que só podiam ser indícios da preparação de um ataque de maior escala. Os comandos portugueses aperceberam-se desta situação, mas o comando britânico manteve a ideia de que o ataque principal que as forças alemãs preparavam não seria na região de Armentières. Só nas vésperas do ataque o comando britânico determinou as mudanças que a situação impunha e que o novo acordo assinado com Portugal preconizava. Em 6 de Abril foi dada execução ao acordo. As tropas portuguesas receberam ordens para manterem na linha da frente apenas a 2ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, passando para o comando do XI Corpo de Exército britânico. Na prática porém, a extensão da linha da frente manteve-se nos 12 km anteriores, sendo retirado um batalhão. Ou seja, a frente ficou com menos densidade de forças. O tempo também foi curto para consolidar as inevitáveis mudanças tácticas resultantes desta decisão unilateral do comando britânico.
Mas o pior estava para vir. Em visitas a 6 e 7 de Abril do comandante do XI Corpo, general Horne, ao comando da 2ª Divisão, as orientações foram no sentido de a Divisão consolidar a defesa da 2ª linha (linha B), com uma mensagem muito clara: “A Divisão tem de morrer na linha B”. Mas as notícias dos preparativos alemães e a constatação do nível moral e do estado físico das tropas portuguesas, levaram o comando britânico à decisão lógica, que uma prudente análise de situação já deveria ter aconselhado há bastante tempo. A 8 de Abril foi dada ordem para a substituição da 2ª Divisão por uma divisão inglesa, movimento que deveria iniciar-se a 9 de Abril. Era tarde e a decisão tardia desmoronou o moral das primeiras linhas portuguesas. Se a vontade de lutar e a disposição anímica era já extremamente baixa, a perspectiva de sair da frente anulou toda a capacidade de resistência e de comando. A situação só poderia conduzir a um desastre, se o ataque se realizasse exactamente nesse dia. Foi o que aconteceu.

São de destacar três depoimentos, que resumem o que então se passou, como testemunhas da época:

1. General Tamagnini de Abreu e Silva, comandante do C.E.P.:

“[Abril,] 9
“Aconteceu o que era de prever: um enorme desastre no sector guarnecido pela nossa divisão. Às 4.15 ouviu-se o primeiro tiro sobre St. Venant pela peça de longo alcance que há alguns dias estava calada. Depois disto mais onze (…)
O tiro às 4.15 parece ter sido um sinal para um bombardeamento terrível e certeiro em todo o sector. Bateram logo em começo os comandos de batalhão e brigada, cortando as comunicações telegráficas; depois, sem cessar, eram batidos os cruzamentos das estradas e as vias de acesso para a frente de forma a tornar perigosíssima e quase impossível a circulação dos agentes de ligação. Este bombardeamento durava ainda às 6h da [manhã], e era acompanhado pelo das áreas da retaguarda do sector.
Seguiu-se um forte ataque boche pela volta das 7 h da manhã, tendo os nossos soldados abandonado a 1ª (às 8 h) e a 2ª linhas (às 9 h) e entrincheirando-se na linha das Aldeias (…)

[Abril,] 10
Depois de almoçar vim para a minha nova residência. As notícias dos jornais dão os boches em Lavantie e Richebourg, mas as que me vieram directamente dão grande o desastre, mas sem vergonha completa para os nossos soldados. Ainda se salvou uma parte da honra do convento. Dizem que as Brigadas em 1ª linha e a artilharia fizeram o seu dever. Tivemos muitas baixas; calcula-se que perdemos 300 oficiais.

2. Douglas Haig, comandante da força britânica, escreveu:
“A preparação do inimigo para uma ofensiva neste sector central tinha sido concluída há algum tempo. O admirável e extenso sistema ferroviário tornou possível, com grande rapidez, a concentração de tropas necessárias para um ataque. As minhas forças neste sector não poderiam ser grandemente reduzidas.
Em consequência destes vários factores, a maior parte das divisões na linha de frente, e em particular a 40ª, 34ª, 25ª, 19ª e 9ª Divisões, as quais em 9 de Abril estavam na frente, entre o sector Português e o Canal Ypres-Comines, já tinham tomado parte na batalha do Sul. Deve considerar-se que, antes da batalha do norte se iniciar, quarenta e seis das minhas cinquenta e oito divisões, tinham estado empenhadas no sul.
No final de Março, no entanto, a parte norte da frente secou rapidamente sob a influência de uma Primavera muito quente, ficando em condições de sofrer um ataque mais cedo do que seria de esperar. Preparativos para apoiar a Divisão Portuguesa, que tinha estado continuamente em linha por um longo período e precisava descansar, foram feitos durante a primeira semana de Abril, e deveriam ter sido concluídos até à manhã do dia 10 de Abril. Entretanto, outras divisões, que tinham sido empenhadas na luta no Somme e que tinham sido retiradas para descansar e se reorganizarem, foram transferidas para a frente do Lys.
A persistência do bom tempo fora da estação e a secagem rápida do vale do Lys permitiu ao inimigo antecipar o ataque à 2ª Divisão Portuguesa.
Na noite de 9 de Abril, um invulgar bombardeamento pesado e prolongado, também com gás, foi iniciado ao longo de praticamente toda a frente de Armentières a Lens, cerca das 4,0 horas, do dia 9 de Abril.
O ataque do inimigo, em primeira instância foi lançado sobre a porção norte da frente do general Sir Horne, do Primeiro Exército.
Cerca das 7,0 horas, no dia 9 de Abril, na espessa neblina que tornou a observação impossível, o inimigo parece ter atacado pela esquerda, a brigada da esquerda da 2 ª Divisão Portuguesa em força e de ter quebrado as suas trincheiras. Poucos minutos depois, a área de ataque alargou-se para sul e para norte.
A comunicação com as divisões em linha foi difícil, mas durante a manhã, a situação ficou esclarecida, tornando-se evidente que um sério ataque estava em andamento na frente da 55a Divisão, da 2ª Divisão Portuguesa e da 40ª Divisão, desde o canal de La Bassé até ao Bosque Grenier.
Para o norte das posições da 55a Divisão, o ímpeto do ataque alemão submergiu as tropas portuguesas, e a progressão do inimigo foi tão rápido que as movimentações para cobrir as defesas da retaguarda deste sector com as tropas britânicas apenas puderam ser concluídas no limite do tempo.
A acção destas tropas, e mesmo de todas as divisões que se empenharam nos combates do Vale do Lys, foi notável, porque, como já foi salientado, praticamente a totalidade delas tinha vindo do campo de batalha do Somme, onde tinham sofrido gravemente e sido submetidas a uma grande tensão. Todas estas divisões, sem um descanso adequado e preenchido com jovens reforços, foram novamente atiradas apressadamente para a luta e, apesar das grandes desvantagens, conseguiram segurar o avanço de forças muito superiores”.

3. Paul von Hindenburg, comandante das forças da Alemanha, relatou o seguinte:
”No Inverno, a área do vale do rio Lys ficava inundada numa larga extensão, e na Primavera, não passava muitas vezes de um pântano, por semanas a fio - um verdadeiro horror para as tropas que estavam nas trincheiras nesta altura.
Era perfeitamente inaceitável pensar na realização de um ataque antes do vale do Lys se tornar transponível. Em circunstâncias normais de clima, só poderíamos esperar que o solo ficasse suficientemente seco, em meados de Abril.
Mas pensei que não seria possível esperar até essa altura para começar o combate decisivo no Ocidente. Tivemos de contar com as perspectivas de intervenção americana.
Não obstante estas objecções ao ataque, tínhamos o plano detalhado, pelo menos teoricamente.
Esta hipótese estava assente nos finais de Março. Logo que vimos que o nosso ataque a Ocidente era inevitável, decidimos iniciar as nossas operações na frente do Lys.
Uma pergunta dirigida ao Grupo de Exércitos do Príncipe Herdeiro Rupprecht, trouxe a resposta de que, graças à Primavera seca, o ataque em todo o vale do Lys se tornara viável.
Em 9 de Abril, aniversário da grande crise em Arras, as nossas tropas passaram das suas lamacentas trincheiras na frente do Lys para a frente de Armentières a La Bassée.
Claro que não foram transferidas por grandes movimentos, mas principalmente por pequenas destacamentos e colunas lentas, através do pântano.
Sob a protecção de nossa artilharia e morteiros de trincheira, eles conseguiram alcançar os seus postos rapidamente, apesar de todos os obstáculos naturais e artificiais, embora aparentemente nem os ingleses nem os portugueses acreditassem que isso fosse possível.
A maioria das tropas portuguesas deixou o campo de batalha em voo desenfreado (wild flight, na tradução inglesa), e de uma vez por todas retiraram-se da frente de combate.
É preciso reconhecer que a nossa exploração da surpresa e da fraqueza portuguesa, juntou-se aos mais sérios obstáculos relativos à natureza do terreno. Só com grande dificuldade alguns vagões de munições acompanharam a infantaria.
No entanto, o Lys foi atingido ainda de noite, tendo sido cruzado num ponto.
Em 10 de Abril Estaires caiu nas nossas mãos e ganhámos mais terreno a noroeste de Armentières. No mesmo dia a nossa frente de ataque estendeu-se para a região de Wytschaete.
O dia seguinte trouxe-nos mais sucessos e novas esperanças. Armentières foi evacuado pelo inimigo e capturámos Merville.
A partir de então a progressão tornou-se mais lenta. Depressa se transformou numa paragem, no flanco esquerdo, enquanto o ataque em direcção a Hazebrouck foi lentamente paralisando”.

sábado, 31 de março de 2012

Inquisição, Uma longa herança


No dia 31 de Março de 1821, faz hoje 191 anos, foi abolida a Inquisição em Portugal. A Inquisição foi estabelecida em Portugal em 1536, tendo durado portanto 285 anos. As Cortes Constituintes, resultantes da revolução liberal de 1820, por proposta do deputado Francisco Simões Marchiocchi, aprovaram o decreto que aboliu o Conselho Geral do Santo Ofício, das inquisições e dos juízos do fisco. É este o texto do decreto de abolição:

“1º – O Conselho Geral do Santo Ofício, as inquisições, os juízos do fisco, e todas as suas dependências ficam abolidas do Reino de Portugal. O conhecimento dos processos pendentes, e que de futuro se formarem sobre causas espirituais, e meramente eclesiásticas, é restituído à jurisdição episcopal. O de outras quaisquer causas de que conheciam o referido tribunal e inquisições fica pertencendo aos ministros seculares, como o de outros crimes ordinários, para serem decididos na conformidade das leis existentes.
2º - Todos os regimentos, leis e ordens relativos à existência do referido tribunal e inquisições ficam revogados, e de nenhum efeito.
3º - Os bens, e rendimentos, que pertenciam aos ditos estabelecimentos, de qualquer natureza que sejam e por qualquer título que fossem adquiridos, serão provisoriamente administrados pelo Tesouro Nacional, assim como os outros rendimentos públicos.
4º - Todos os livros, manuscritos, processos findos e tudo o que mais existir nos cartórios do mencionado tribunal, e inquisições, serão remetidos à Biblioteca Pública de Lisboa, para serem conservados em cautela na Repartição dos Manuscritos, e inventariados.
5º - Por outro decreto, e depois de tomadas as necessárias informações, serão designados os ordenados que ficarão percebendo os empregados que serviram o dito tribunal e inquisições.
A Regência do Reino assim o tenha entendido e faça executar.
Paço das Cortes, 31 de Março de 1821 – Hermano José Braancamp do Sobral, presidente, Agostinho José Freire, deputado secretário, João Baptista Felgueiras, deputado secretário”.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Exercício Alcora, uma aliança tripartida



No dia 30 de Março de 1971, faz hoje 41 anos, teve início em Pretória mais uma reunião dos responsáveis militares de Portugal, África do Sul e Rodésia, os três “países Alcora”. Era a primeira reunião de alto nível da ATLC (Alcora Top Level Commission), um ano depois da primeira reunião informal, e quando já se definira o “Exercício Alcora”. Pela primeira vez, as três partes estiveram representadas por altos representantes da hierarquia militar de cada país. Durante a reunião foi melhorado o documento base que servira de fundamento à aprovação do “Exercício” em 9 de Outubro de 1970, e ficou consolidado o objectivo do “Exercício Alcora”, ou seja, da aliança político-militar dos três países. Consta da acta o seguinte:

“O Presidente, referindo-se ao documento de Outubro de 1970, citou o parágrafo inicial: O objectivo do Exercício Alcora consiste em investigar os processos e os meios de conseguir um esforço coordenado tripartido entre Portugal, Rodésia e África do Sul, tendo em vista fazer face à ameaça mútua contra os seus territórios na África Austral. Torna-se implícito que isto implicará também uma ajuda eventual a outros estados da África Austral. (…) O objectivo acima delineado engloba a coordenação de todos os aspectos e facetas da defesa naqueles domínios em que tal coordenação possa ser tanto rendosa como benéfica. Isto deverá, portanto, incluir actividades relativas a todos os ramos das Forças Armadas (Marinha, Exército e Força Aérea). Deve incluir-se neste âmbito o estudo da possível cooperação de natureza não militar quando tal cooperação possa contribuir para as operações militares”.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Marcelo Caetano, Um abismo nunca vem só...



No dia 28 de Março de 1974, faz hoje 38 anos, Marcelo Caetano fez, na Televisão e na Rádio, a sua última “conversa em família”. Desde 8 de Janeiro de 1969 que Marcelo Caetano se apresentava periodicamente na Televisão para uma “conversa” com os portugueses, o que contribuiu para popularizar a sua imagem em contraste com a figura fugidia de Salazar, seu antecessor. Para Caetano, a RTP (única que existia na altura) era um instrumento ao serviço do Governo e devia estar submetida ao que o Governo entendia por interesse nacional.
Esta "conversa em família" foi difundida poucos dias depois da tentativa do golpe militar das Caldas da Rainha. As palavras de Marcelo Caetano deixam transparecer as graves dificuldades que o regime vinha sentindo para se manter no poder. Aumentava a pressão diplomática na frente externa, a guerra colonial arrastava-se sem solução e a contestação interna fazia-se ouvir como nunca.
A comunicação é um misto de balanço e lamento, deixando entrever que ele próprio estava convencido que o seu mandato se aproximava do fim.
Eis um dos trechos principais:

“Tem-se a Nação recusado a abandonar as terras de além-mar onde grandes comunidades vivem e progridem como núcleos integrantes da Pátria Portuguesa. (…)
De todas as infâmias que os adversários da nossa presença em África têm posto a correr contra nós e alguns portugueses infelizmente repetem, confesso que me fere mais a de que defendemos o Ultramar para favorecer os grandes interesses capitalistas. (…) O que defendemos em África são os portugueses, de qualquer raça ou de qualquer cor, que confiam na bandeira portuguesa; é o princípio de que os continentes não são reservados a raças, mas neles deve ser possível, para aproveitar os espaços vazios e valorizar as riquezas inertes, o estabelecimento de sociedades multirraciais; é o direito dos brancos a viver nos lugares que tornaram habitáveis e trouxeram à civilização, e a participar no seu governo e administração. Num mundo que proclama a luta contra o racismo, que nega a legitimidade das discriminações raciais, é isso mesmo que defendemos: a possibilidade de, na África Austral, onde de longa data os europeus se fixaram, prosseguirem a sua evolução sociedades políticas não baseadas na cor da pele”.

Ao mesmo tempo que estas palavras eram proferidas, os representantes portugueses na aliança Alcora negociavam com a África do Sul o apoio financeiro necessário ao prosseguimento das operações militares, no âmbito do acordo assinado em 1970, entre Portugal e os regimes racistas da África do Sul e da Rodésia. Os militares que preparavam o 25 de Abril não tinham um conhecimento directo da formalidade da aliança, mas tinham ideia suficiente da existência de compromissos políticos entre Portugal e os dois regimes racistas. A razão dos capitães era também uma questão de dignidade política.

domingo, 25 de março de 2012

Carlos Fabião, Guiné, uma nova Índia...


No dia 25 de Março de 1973, faz hoje 39 anos, um avião Fiat G-91 foi abatido por um míssil na Guiné, próximo de Guileje, sendo a primeira vez que o PAIGC utilizava uma arma deste tipo.
O avião era pilotado pelo tenente Cardoso Pessoa, que foi o primeiro piloto português a sofrer um ataque com míssil SA7. Na sequência da acção conseguiu ejectar-se e foi recuperado por uma unidade de Comandos helitransportada.
Esta acção com um míssil terra-ar, que no relatório português foi designado por “arma desconhecida, tipo foguete” e só mais tarde identificado como Strella, representou o fim da supremacia aérea das forças portuguesas na Guiné. Mas não foi uma acção isolada, nem fortuita, já que, só na semana de 25 de Março a 1 de Abril, o PAIGC realizou mais as seguintes acções antiaéreas:
• Dois aviões T-6 foram flagelados junto à fronteira da Guiné Conacri na zona de Guileje;
• Um helicóptero ALIII foi flagelado com tiros de metralhadora;
• Outro Fiat G-91 foi atingido em 28 de Março com “arma desconhecida, tipo foguete”, em Madina do Boé, tendo explodido e perecido o piloto - o tenente-coronel piloto aviador Brito, o primeiro piloto a ser abatido por um míssil Strella aos comandos de um avião a reacção. A outra aeronave que com ele fazia parelha foi também flagelada com a mesma “arma desconhecida”, mas conseguiu escapar.
Na semana seguinte, de 1 a 8 de Abril, continuaram as acções antiaéreas do PAIGC:
• Um avião DO-27 flagelado com lança foguetes RPG;
• Um helicóptero ALIII flagelado com tiros de armas ligeiras em Guileje;
• Um avião T-6 abatido por arma desconhecida na região de Binta/Guidage, tendo-se despenhado e o piloto perecido.
• Um avião DO-27 abatido em Binta/Guidage, tendo perecido o piloto e o passageiro, um major do Exército.
• Um avião DO-27 flagelado em Talicó, sem consequências.

Quando, em 1984, a Associação 25 de Abril, realizou um colóquio comemorativo dos 10 anos do 25 de Abril, Carlos Fabião, que tinha feito várias comissões na Guiné, e foi o último representante de Portugal naquele território, durante o período de transição, apresentou a esse colóquio uma comunicação intitulada “A Descolonização na Guiné-Bissau”, onde refere a questão dos mísseis:

“Porém, nos fins de Março e em plena operação, o «strella» apareceu nos céus da Guiné. Foi o fim do domínio dos ares; a Força Aérea Portuguesa encontrou um adversário à altura contra o qual não conseguiu arranjar uma resposta adequada, com oportunidade.
A supremacia aérea total, que constituía o grande trunfo sobre o qual assentava toda a manobra militar no TO (Teatro de Operações), desapareceu bruscamente, permitindo o equilíbrio e logo a seguir a inversão da iniciativa a favor dos guerrilheiros do PAIGC. (…)
Por outro lado, toda a estratégia de Spínola, que passava sempre por uma solução política, negociada com o PAIGC, se desmoronava face à intransigência do Governo Central que não admitia, em condição alguma, o que apelidava de cedência política.
Para a estratégia colonial de Lisboa, a Guiné não passava de um simples peão, sem grande valor, que se deixava comer quando já não fosse possível defendê-lo mais. Aliás, Marcelo Caetano fora bem explícito ao admitir que para a Guiné se aceitava uma derrota militar mas nunca uma cedência política.
A partir deste conceito, já nada mais restava fazer na Guiné. As medidas a tomar, e era urgente que se tomassem, teriam de ser realizadas na metrópole. Impunha-se o derrube do governo marcelista antes que as colónias se perdessem por sucessivas derrotas militares cuja responsabilidade seria sempre atribuída às Forças Armadas Portuguesas. Como acontecera com a Índia.
O general Betencourt Rodrigues, o novo Governador e Comandante-Chefe da Guiné, aceitou a estratégia do governo-central que previa a resolução do problema guineense pela perda da colónia por uma derrota militar com o sacrifício de toda a guarnição, se tal se tornasse necessário. «Resistir até à exaustão dos meios», foi a ordem que recebeu. Não levou consigo nenhuma ideia ou projecto para fazer face a uma situação que se agravava, dia após dia. Limitou-se a procurar cumprir a «receita» marcelista: resistir. Resistir até ao fim. A única preocupação que deve ter tido foi quando constatou que essa resistência não ia, com certeza, durar até ao final da sua comissão. Com efeito, a situação política e militar na Guiné, após a partida de Spínola, entrou em acelarada degradação. A pressão dos guerrilheiros do PAIGC, nas três zonas operacionais do TO, nomeadamente a Leste e a Sul, sobre as dispersas e desmoralizadas guarnições portuguesas intensificou-se e só o 25 de Abril conseguiu evitar um completo desastre militar”.