sexta-feira, 16 de março de 2012
16 de Março de 1974, Uma tentativa condenada ao fracasso…
No dia 16 de Março de 1974, faz hoje 38 anos, uma força do Regimento de Infantaria 5 (Caldas da Rainha) saiu do seu quartel em direcção a Lisboa, com o objectivo de participar numa sublevação militar contra o Regime. Ainda não estão completamente esclarecidas as circunstâncias em que esta acção teve lugar, embora se possam estabelecer os seus contornos gerais.
Numa sessão realizada em Coimbra em 2007, quando se perfaziam 33 anos desse evento, fui convidado a apresentar a minha visão da questão, que resumi nos seguintes tópicos:
“O 16 de Março
1º - O Movimento dos Capitães, nas vésperas do 16 de Março, estava consciente da necessidade de derrubar o regime através de um golpe de Estado.
2º - Já existiam duas tendências no Movimento. Uma mais ligada ao general Spínola que demonstrava propensão para actuar autonomamente. Outra, mais alargada, em que participava todo o Movimento, incluindo os chamados spinolistas.
3º - Os motivos de conflito entre as duas correntes, nesta época, podem resumir-se:
a. O programa de Cascais;
b. A escolha do general;
c. O plano de operações.
4º - A corrente spinolista tem tendência para a acção imediata, baseando-se no facto de ter um programa (o livro “Portugal e o Futuro”), um chefe (o general Spínola) e um grupo de fiéis aderentes muito qualificados e experientes militarmente.
5º - A corrente autónoma (chamemos-lhe assim) em que curiosamente a corrente spinolista participava, tem já um programa (o documento de Cascais), mas tem o compromisso de elaborar um Programa Político dele resultante, com objectivos muito concretos, tem dois chefes (sendo que o maioritário – Costa Gomes – não dá sinais de apoiar decididamente a operação de derrube do regime) e procura elaborar um plano de operações que está longe ainda de satisfazer a maior parte dos responsáveis pela operação.
6º - Com base nas informações do general Spínola, no seu livro “Portugal sem Rumo”, a corrente spinolista reúne com certa frequência, por vezes com a presença do general. Depois do cancelamento do dia 14 pelas razões que aqui já foram referidas, o general Spínola estava convencido que a “operação” podia realizar-se no dia 19 de Março. Tenho a convicção que os seus apoiantes partilhavam desse plano.
7º - O general Spínola manteve sempre a ideia, mesmo depois do 16 de Março, de que os seus apoiantes dominavam a preparação e iriam conduzir a execução do movimento militar.
8º - O 16 de Março causa grandes danos à corrente spinolista, em virtude não só de inviabilizar um provável plano de execução da “operação” para 19 de Março, mas também porque levou à prisão alguns dos seus mais importantes elementos e da desmoralização de outros, assim como eleva o nível de vigilância do regime (através da DGS) sobre o próprio general.
9º - O 16 de Março permite ao Movimento tirar ilações sobre as fragilidades dos meios e da forma de defesa do regime e exerceu sobre o Movimento uma pressão definitiva, no sentido da irreversibilidade de uma acção violenta contra o regime.
10º - O 16 de Março ocasionou também a transferência de vários oficiais para diversas unidades espalhadas pelo país, assegurando a difusão da ideia matriz do Movimento – o derrube do regime é a questão prioritária.
11º - A forma como o 16 de Março decorreu convenceu finalmente todos, incluindo a corrente spinolista, de que era fundamental planear detalhadamente a acção militar, por forma a evitar surpresas e a convencer os operacionais.
12º - É de realçar que o regime assumiu que o tão temido movimento militar (que já se sabia ter centenas de comprometidos) não tinha capacidade para criar sérias dificuldades ao governo e ao regime – afinal a acção desencadeada nem tivera apoio militar, nem apoio popular.
13º - É um facto que o regime não alterou uma vírgula à sua política colonial, apesar de os acontecimentos terem tido, porventura, alguma influência na pressa de realizar um encontro secreto entre um representante do Governo português e representantes do PAIGC em Londres, que teve lugar em 26 e 27 de Março, aliás sem resultados.
Finalmente:
1 – O 16 de Março é um movimento preliminar, em relação ao 25 de Abril. Tem paralelo histórico com o 31 de Janeiro de 1891 em relação à implantação da República, mas também com o movimento de Gomes Freire de Andrade de 1817, antes do 24 de Agosto de 1820; e com o 18 de Abril de 1925, antes do 28 de Maio de 1926, para só citar os mais importantes.
2 – O 16 de Março é uma acção não planeada, que sai à rua precipitadamente, em resultado de um encadeamento de equívocos. Poderia pensar-se que ninguém planeia uma acção militar desta dimensão para um sábado, mas até nesta conclusão é necessário ter cuidado. De facto, as três tentativas preliminares de que acabei de falar e que foram todas derrotadas – o 31 de Janeiro de 1891, o 18 de Abril de 1925 e o 16 de Março de 1974, são todas a um sábado. Tive o cuidado de verificar os dias da semana de vários outros movimentos vitoriosos da nossa História recente. Ora vejamos:
24 de Agosto de 1820 – revolução liberal – foi terça-feira;
27 de Maio de 1823 – movimento miguelista da Vilafrancada – foi terça-feira;
30 de Abril de 1824 – novo movimento miguelista da Abrilada - foi sexta-feira;
9 de Julho de 1832 – desembarque no Mindelo da força liberal – foi segunda-feira;
9 de Setembro de 1837 – Revolução Setembrista – foi sexta-feira;
27 de Janeiro de 1842 – golpe de Estado de Costa Cabral no Porto – foi quinta-feira;
19 de Maio de 1870 – última saldanhada – foi quinta-feira;
5 de Outubro de 1910 – revolução republicana – foi quarta-feira;
21 de Janeiro de 1915 – movimento das espadas – foi quinta-feira;
5 de Dezembro de 1917 – movimento sidonista – foi quarta-feira;
28 de Maio de 1926 – foi sexta-feira;
3 de Fevereiro de 1927 – primeiro movimento contra a ditadura militar e único movimento derrotado de todos os que acabo de referir – foi quinta-feira;
E vejamos aqueles que nos dizem mais respeito:
14 de Março de 1974 – Primeira data de uma “operação” – era quinta-feira;
19 de Março de 1974 – data da “operação” referida pelo general Spínola no “Portugal sem Rumo” – era terça-feira;
16 de Março de 1974 – foi sábado;
25 de Abril de 1974 – foi quinta-feira.
Recomendação: quando planearem um novo movimento militar nunca o façam num sábado. Podemos dizer que é uma lição da História.
Em conclusão:
Não é sustentável a ideia de que o 16 de Março foi um movimento spinolista. É verdade que não o foi, mas quem estava em melhor situação de aproveitar um movimento vitorioso, nessa altura, era o grupo spinolista. Também por isso foi o que ficou mais exposto a um desaire.
O 16 de Março foi fundamental para moldar a forma que assumiu a intervenção militar em 25 de Abril de 1974”.
segunda-feira, 12 de março de 2012
João Chagas, Quando se pinta o diabo...
No dia 9 de Março de 1917, fez há dias 95 anos, a Alemanha declarou guerra a Portugal. João Chagas, ministro de Portugal em Paris (assim se chamava o Embaixador), adepto da entrada de Portugal na guerra, dava conta do facto no seu diário, no dia seguinte:
«10 de Março
A Alemanha declarou o estado de guerra com Portugal. Este facto considerável foi-me comunicado pelo ministro num telegrama de dez palavras! Corrida de jornalistas à Legação e um deles comunica-me a nota do Governo Alemão ao Governo Português, que as agências fazem espalhar profusamente e que a esta hora só a Legação de Portugal desconhece. “Comunique a esse governo que a Alemanha declarou a guerra a Portugal” diz-me de Lisboa o chefe da nossa diplomacia. Meu embaraço, porque não disponho de elementos de informação oficial que me permitam fazer acompanhar a comunicação de alguns factos que precisem a origem do conflito. Pois se de toda a questão dos navios não houve o menor conhecimento nesta casa! Às seis da tarde, lá vou ao Quai d'Orsay levar a minha nota, que compus como pude, a Cambon na ausência de Briand. O antigo embaixador de França em Berlim está mais informado do que eu do que se passa em Lisboa. Não tenho por isso novidades a dar-lhe. A entrevista é curta. No entanto toco de passagem na questão de Espanha e pergunto-lhe o que pensa a este respeito. Cambon não acredita que a Espanha deva inquietar Portugal. Nem está em condições de se envolver em conflitos, nem isso convém aos seus interesses. Entretanto, Cambon é de opinião que não se deve mexer no assunto. Para quê? E ao despedir-se cita-me esta frase de Bismarck: - À force de peindre le diable, on finit par le faire paraître».
O ditado valia, não apenas para a questão das relações com Espanha, mas sobretudo para a entrada de Portugal no conflito, com as consequências que depois a República teve de suportar, iniciando aí a sua extinção.
Ver o texto da declaração de guerra em : http://historiaaberta.com.sapo.pt/lib/doc004.htm
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quinta-feira, 8 de março de 2012
Exercício Alcora, uma aliança entre Portugal e a África do Sul
No início de Março de 1970, faz agora 42 anos, realizou-se em Pretória, África do Sul, uma reunião de altas entidades militares portuguesas e sul-africanas. A reunião foi organizada pelas autoridades sul-africanas, com o pretexto de efectuar um balanço das actividades de apoio da África do Sul às forças portuguesas no Leste e Sudeste de Angola.
Na reunião, os sul-africanos apresentaram o seu ponto de vista sobre a cooperação até aí existente e fizeram várias propostas para o futuro. Dividiram a exposição nos seguintes pontos:
1ª Parte – A situação militar na África Austral, com referência especial para a República da África do Sul;
2ª Parte – A situação no Este e no Sueste de Angola – Distritos do Moxico e Cuando-Cubango;
3ª Parte – Plano de Defesa para a África Austral;
4ª Parte – A República da África do Sul na condução global da campanha no Sudeste de Angola.
O que os sul-africanos disseram foi incómodo para os militares portugueses, mas pouco puderam argumentar, em face da profundidade do apoio que as forças sul-africanas já nessa altura prestavam às forças portuguesas. Esta reunião teria depois continuidade com a assinatura, em Outubro desse ano, de um acordo de cooperação, que viria a chamar-se “Exercício Alcora”, base da aliança que os dois regimes, reforçados com a adesão da Rodésia, estabeleceriam nestes últimos anos da guerra, com o fim de constituir um bloco branco na África Austral.
Num dos documentos apresentados nessa reunião de Março de 1970, a África do Sul defendia que deviam ser preparados planos conjuntos, para responder às contingências da evolução das operações, nas seguintes áreas:
“1. Meios de comunicação (estradas, caminhos-de-ferro, aeroportos, pontes, etc.); 2. Telecomunicações, incluindo a selecção e a localização das frequências e a determinação de disposições conjuntas para a segurança das telecomunicações; 3. Elaboração de mapas e levantamentos topográficos; 4. Determinação das exigências conjuntas respeitantes a defesa aérea e a sistemas de aviso (alerta) prévio; 5. Determinação de uma doutrina comum para contra-subversão, incluindo procedimentos estratégicos, tácticos e operacionais ‘standard’, acordados mutuamente; 6. Disposições de segurança conjuntas; 7. Exploração conjunta das informações por uma Agência de Informação Conjunta; 8. Problemas de refugiados; 9. Disposições para o comando e controlo na eventualidade de operações conjuntas”.
Nota: Brevemente será publicada, em livro, uma análise das relações entre Portugal, a África do Sul e a Rodésia nestes anos finais da guerra, da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes.
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segunda-feira, 5 de março de 2012
Do Movimento dos Capitães ao Movimento das Forças Armadas
Em 5 de Março de 1974, faz hoje 38 anos, o Movimento dos Capitães fez a sua última reunião plenária em Cascais e aprovou o que depois se chamou “Documento de Cascais”.
Na marcha que empreenderam, em direcção à acção militar contra o regime, os capitães foram definindo como bases de actuação, os seguintes princípios:
- Organização democrática do próprio Movimento;
- Preparação de um plano de operações minucioso e adequado à operação militar necessária;
- Elaboração e aprovação de um programa político de democratização, que desse um sentido último à intervenção militar.
Com o objectivo de reforçar o empenhamento dos participantes no Movimento, todos vão assinar, desde o Verão de 1973, de forma colectiva, uma série de documentos de contestação, nos quais se virão a comprometer cerca de 700 oficiais, 17% do total de mais de 4.000 efectivos do Exército.
E se este número é significativo, ele fica mais evidente se assinalarmos que participam no Movimento 602 oficiais das Armas combatentes (Infantaria, Artilharia e Cavalaria), 29% do total de 2.079 oficiais destas armas. E ainda mais se realçarmos a participação de 485 majores e capitães destas Armas, 38% do total dos 1.279 existentes.
Mas não devemos confundir este primeiro movimento militar (O Movimento dos Capitães) com o seu sucessor, o Movimento das Forças Armadas.
À medida que o Movimento dos Capitães se foi transformando em MFA, tanto pelo alargamento aos três Ramos das Forças Armadas, como pela consciência da necessidade de uma acção política, foi-se afastando irremediavelmente das reivindicações corporativas iniciais.
Ora, esta evolução do Movimento dos Capitães para MFA consolidou-se verdadeiramente na aprovação do documento de Cascais, que, apesar do avanço que representou, só deixava de fora alguns militares irrevogavelmente sensíveis à questão colonial. Ninguém contestava já a necessidade de o "comum dos cidadãos" participar na "definição do interesse nacional", e de o poder político deter "o máximo de legitimidade" e as instituições serem "efectivamente representativas das aspirações e interesses do Povo". Todos aceitavam também que "sem democratização do país" não haveria solução para os "gravíssimos problemas que se abatem sobre nós".
Só o que, quase paradoxalmente, não era aceitável por todos (embora o fosse pela grande maioria), era a solução da guerra colonial proposta pelo documento de Cascais, solução que deveria ter em conta "a realidade incontroversa e irreversível da funda aspiração dos povos africanos a se governarem por si próprios".
O salto qualitativo que o Movimento deu em Cascais preparou o terreno para a consolidação do MFA, do seu principal documento e do apoio generalizado que mereceu antes e sobretudo depois do 25 de Abril: o Programa do MFA.
Eis um pequeno trecho do Documento de Cascais:
“Trata-se, portanto, antes de mais e acima de tudo, da obtenção a curto prazo de uma solução para o problema das Instituições no quadro de uma democracia política.
Neste contexto, consideramos indispensável e urgente que:
- Sejam definidos e clarificados os objectivos nacionais, e estes aceites pela Nação;
- Seja a Nação claramente elucidada sobre a parcela desses objectivos cuja prossecução cabe às F. A;
- Seja promovida e garantida a permanência da compatibilidade dessa parcela com a capacidade em meios;
- Seja promovida a reestruturação das F. A., visando a qualificação dos seus chefes baseada no seu valor militar, o aproveitamento dos meios em termos de eficiência e eficácia, o respeito pelos direitos individuais, e a justiça;
- Possam as F. A. sentir que é efectivamente proporcionada a salvaguarda legítima do seu prestígio, incluindo a sua não identificação com outras actividades que não pertencem ao seu múnus específico.
Só nestas condições poderão as F. A. ter um mínimo de garantia de que são instrumento da vontade da Nação e que não se encontram ao serviço de qualquer grupo. Então, já não lhes será permitido duvidar nem da legitimidade do poder, nem dos objectivos por este definidos e que tudo farão para cumprir”.
Ver o texto completo em: http://ernestomeloantunes.com.pt/omovimentoasforcasarmadaseanacao.htm
sábado, 3 de março de 2012
Herculano, Liberdade e classe média...
Em Dezembro de 1852, já fez portanto 159 anos, Alexandre Herculano escreveu o Prólogo da sua obra História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, cujo Tomo I saiu em 1854. Neste Prólogo, Herculano aborda mais uma vez a situação política e as soluções em conflito, explicando os valores que estavam em confronto. Retomando o seu conceito da classe média e da sua importância na sociedade, termina aconselhando os leitores a procurar respostas “na voz íntima do seu coração” para as perguntas que formula na análise da sociedade do seu tempo, só então decidindo cada um, “entre a reacção e a liberdade”. Mais uma vez se constata que há textos com duração prolongada, como se verifica pelos seguintes pequenos trechos:
“Confundindo as ideias de liberdade e progresso com as de licença e desenfreamento, o direito com a opressão e a propriedade, filha sacrossanta do trabalho, com a espoliação e o roubo; tomando, em suma, por sistema de reforma a dissolução social, há poucos anos que certos homens e certas escolas encheram de terror com as suas loucuras a classe média, a mais poderosa, a única verdadeira e eficazmente poderosa, das que compõem as sociedades modernas. (…)
Isto é grave, porque é atroz; mas ainda há aí causa mais grave. É que entre os grupos que vitoriam em quase toda a Europa as saturnais da reacção há um mais forte, mais activo e, sobretudo, mais eficaz, porque se acha senhor, em muitas partes, do poder público e serve-se desse poder e dos soldados e magistrados e agentes públicos que lhe obedecem para anular num dia as garantias conquistadas pelas nações em meio século de lutas terríveis. É o grupo dos Cains; daqueles a quem, mais tarde ou mais cedo, Deus e os homens hão-de, infalivelmente, perguntar: «Que fizestes de vossos irmãos?» É o grupo daqueles que deveram quanto são e quanto valem aos triunfos da liberdade; que, sem as lides dos comícios, dos parlamentos, da imprensa; sem o chamamento de todas as inteligências à arena dos partidos; calcados por um funcionalismo despótico, por uma nobreza orgulhosa, por um clero opulento e corrompido, teriam fechado o horizonte das suas ambições em serem mordomos ou causídicos de algum degenerado e raquítico descendente de Bayard ou do Cid ou em vestirem a opa de meninos do coro de algum pecunioso cabido. Estes tais, que trocaram o aposento caiado pela sala esplêndida, o nome peão de seus pais pelos títulos nobiliários, o sapato tauxiado e o trajo modesto do vulgo pelos lemistes e cetins cortesãos, cobertos de avelórios e lentejoulas, das condecorações com que o poder costuma marcar os seus rebanhos de consciências vendidas; estes tais, recostados nos sofás, para onde se atiraram de cima do tamborete de couro ou da cadeira de pinho, sentem esvair-se-lhes a cabeça com os tumultos eleitorais, com as lutas da imprensa, com as discussões tempestuosas - e não raro estéreis - das assembleias políticas. Demasiado repletos, perderam nos vapores dos banquetes a lucidez da inteligência; demasiado mimosos, perderam, reclinados nos coxins das suas carruagens, a energia laboriosa da classe de que saíram. As dolorosas e longas experiências da liberdade afiguram-se-lhes, agora, como um desvario do género humano e as tentativas das nações para se constituírem menos imperfeitamente como uma série de erros deploráveis. (…)
Este é o grupo dos grandes miseráveis. Ao pé dele, às vezes confundindo-se, compenetrando-se ambos, falando a mesma linguagem, está o da burguesia tímida, cujos nervos são débeis de mais para resistirem aos frequentes abalos das comoções políticas. (…)
O remédio contra as ideias exageradas de cabeças ardentes ou levianas ou contra os desígnios dos hipócritas da liberdade não está em reacções moralmente impossíveis. O incêndio que ameaçou por alguns meses devorar a Europa e que arde ainda debaixo das cinzas não se apaga nem com sangue, nem colocando em cima destas o cadáver corrupto do absolutismo. Para o extinguir, necessita-se das resistências organizadas e enérgicas, das ideias sãs e exequíveis; necessita-se de que a classe média não esqueça ou despreze tantas vezes os seus deveres; isto é, cumpre que se lembre de que a sua vida é dupla, pública e privada, de cidadãos e de homens; que, assim como o mau chefe de família é um indivíduo desonrado, o que despreza as funções públicas que lhe incumbe exercer para a manutenção da liberdade igualmente se desonra”.
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quinta-feira, 1 de março de 2012
Repórter X, O patriotismo português…
No dia 31 de Janeiro de 1926, fez há pouco 86 anos, o Repórter X escreveu uma crónica no jornal A Choldra, com o título “O patriotismo português e a nossa pseudo-independência”, adequado ao tempo que corria, mas admirável texto com duração garantida. O Repórter X, Reinaldo Ferreira (1897-1935), foi um extraordinário jornalista, se assim se pode dizer. Muitas das suas mais marcantes reportagens são puras invenções, mas de um sabor e de uma mestria tal que eram tidas como verdadeiras e apreciadas pelas suas outras qualidades, desde a beleza dos textos, à linguagem utilizada, aos comentários e considerações aduzidas… Deixou inúmeros escritos, novelas, peças de teatro, folhetins. Também realizou filmes e fundou jornais. Se houvesse memória, Reinaldo Ferreira seria uma extraordinária figura do nosso século XX.
Nesta pequena crónica publicada em A Choldra, jornal do Partido Republicano da Esquerda Democrática de José Domingues das Santos, podemos ler uma saborosa análise de algo que todos sentimos como ideia persistente – o patriotismo relacionado com o valor da nossa acção:
“O patriotismo, como o amor, como a fisionomia das cidades, como a ciência - sofre a influência das épocas, a moldagem dos séculos. O patriotismo em todos os países perdeu a “moralidade convencional e romântica” para ganhar precisão e exactidão práticas. Em Portugal, somos patriotas pelas mesmas fórmulas e pelas mesmas razões com que a velhada de Azambuja ou Lavarabos, prefere as diligências solavancadas e lentas a uma parelha, à vertigem, com molas e conforto, de um auto moderno.
E patriotas porque o sol brilha com ouros preciosos, e o clima tem suavidades de morfina - satisfazemo-nos em berrarias de praça, em palmadas exaltadas no peito. O nosso patriotismo tem um rival: o dos búlgaros. Em 1919, conheci em Anvers um búlgaro. Falámos de Portugal - e ele, levantando um canto dos lábios, com superioridade cómica, contentou-se em dizer:
- Se você conhecesse a Bulgária!
- Não conheço! Mas não há sol como o de Lisboa.
- Se você conhecesse o de Sófia!
- Bom... mas o nosso clima é o mais...
- Ah! Doçuras como as da temperatura búlgara...
- Vocês podem ter um sol e um clima como o nosso - o que não têm, com certeza, é “tesura" como a do portuguezinho.
- Bem se vê que você não conhece a história da Bulgária - replicou ele - É a mais gloriosa; é o maior desfile de bravos e de heróis…
- Mas... já experimentou os nossos barbeiros?
- Não podem ser melhores que os nossos...
- E o fado?
- Ora... ora… o “tchark” é a melodia mais sentimental que existe!
E não houve forma! O patriotismo do búlgaro, como o nosso, como o da Pérsia, defende apenas o que não marca; o que não dá prosperidades nem honra, porque não é produto da vontade dos homens, porque não exibe qualidades de raça nem virtudes de época.
E por isso…
***
Por isso, senhores, temos a ilusão triste e falsa do nosso orgulho de portugueses.
A nossa independência é uma fumarada de ópio.
A nossa autonomia, uma palavra sem significado nos dicionários da política mundial. A nossa soberania - uma mentira como a beleza da cocotte maquilhada - tem hoje menos vontade própria, menos orgulho, menos dignidade do que os protectorados ingleses, do que a desses reinos asiáticos fechados num ritual, escravizados em palácios seculares - e cujos monarcas, antes de jantar perguntam aos altos comissários europeus, de que menus devem servir-se.
O Egipto, na ratoeira da sua liberdade, agita-se, convulsiona-se, repele sugestões, luta com epilepsias loucas, contra a pressão da pata britânica. A Índia, sangrando num eterno martírio a San-Sebastião, segue o seu roteiro da invasão, caindo, levantando-se, mas reagindo sempre, e sempre pronta a estrangular o opressor.
Nós, não. O nosso patriotismo é feito de cavaqueira, de gestos, de ameaças contra quem duvidar da luz do nosso sol ou das delícias do nosso clima!
***
A palavra “portugalizar” não é uma calúnia. A Inglaterra guia-nos pelo labirinto da política internacional como um cicerone da Cook; a Inglaterra zanga-se, põe-nos de castigo e dá-nos torrões de açúcar, em forma de “visita de esquadra” como os tutores fazem aos pupilos, segundo as suas travessuras ou os seus juízos. A Inglaterra faz mais: a Inglaterra, através do “professor” que a representa em Lisboa, escreve cartas aos jornais, premiando ou reprovando as campanhas que no jornalismo se iniciem. (…)”.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Artur Leitão, Os nossos meios políticos...
No dia 22 de Junho de 1925, vai fazer portanto 87 anos, Artur Leitão, médico, jornalista e republicano, escreveu no jornal O Espectro, um texto sobre a política portuguesa intitulado "...A rufo de tambor e toque de corneta", que reflectia, não apenas a época difícil que as instituições republicanas atravessavam, mas o próprio comportamento dos políticos da República, dirigindo-se sobretudo àqueles que, na sombra, conspiravam contra a democracia. E como há textos que nunca se desactualizam, aqui reproduzo alguns trechos:
“Lembro-me de ter lido, não sei ao certo onde, que a política é um ambiente de especialização. Assim como o exame de uma tela ou duma escultura deve ser feito a uma luz apropriada que lhe ponha em relevo todos os valores, assim também um problema social precisa de ser colocado numa atmosfera propícia que lhe demarque todos os contornos e dê nitidez a todas as arestas. Fora desse ambiente adequado, o assunto não obterá facilidades de análise, nem elementos de solução imparcial e genérica, porque hão-de vir a prejudicá-la o choque de interesses restritos, ou a introdução de critérios simplistas, ou alguma outra, se não mais, das múltiplas causas perturbadoras da serenidade, da ponderação, tacto e jeito que se tornam imprescindíveis para as funções de estadista.
E agora pergunto: Os nossos meios políticos constituem porventura, nesta crítica hora, os ambientes de especialização referidos na fórmula que cito e que tem tanto de sucinta como de bem achada?
(…)
Há efectivamente, nos meios políticos portugueses uma especialização, mas essa, em vez de ser esclarecedora, é deformante. Não coincide com o meio social – sobrepõe-se-lhe.
Desta maneira, sucede que um problema de interesse colectivo, quando penetra no ambiente político, muda-se desde logo num caso de interesse da clientela. Dá-se, nessa diferença de ambiente, o nacional e o partidarista, o mesmo que acontece à ponta de uma vara que se mergulha num tanque: a vara refracta-se, - entorta. Mas a inflexão da vara é um mero ilusionismo de óptica, ao passo que um problema nacional quando mergulha, quando chafurda nas águas estagnadas da nossa politiquice, fica tão real e verdadeiramente torto, como um chifre, com sua licença”.
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