terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Padre Firmino, Mandamentos do vinho!


Só hoje regresso ao “Fio da História”, porque estive em Vinhais, na Feira do Fumeiro. Espero que os meus leitores me perdoem. Apreciei a companhia de bons amigos e familiares, as conversas que naturalmente acompanham estes encontros, a excelente organização da Feira e, sem qualquer dúvida, a qualidade dos produtos apresentados, em especial o célebre salpicão de Vinhais.

E porque vem a propósito, percorro o cancioneiro de Vinhais recolhido pelo Padre Firmino A. Martins, no seu Folklore do Concelho de Vinhais, cujo 2º e último volume foi publicado em 1938, há portanto 74 anos, e dele escolho uma cantiga chamada “Mandamentos do vinho".

"Mandamentos do vinho

Os mandamentos do vinho,
são dez por este caminho:

Primeiro amarás
o vinho de Portugal,
não lhe deitarás água,
que te pode fazer mal.

Segundo não jurarás
pela flor da laranjeira.
é ofensa que se faz
à nossa prima parreira.

Terceiro amarás
azeitonas, pão e queijo,
dai-lhe com o jarrinho
à medida do desejo.

Quarto não levantarás
outro que esteja deitado,
deita-te com ele ao comprido,
dá volta pr’ó outro lado.

O quinto não matarás
a sede por um pichel,
vai beber de bruços
à boca de um tonel.

O sexto não fornicar
senão por uma cuba grossa,
tapa-lhe bem a boca
pr’a que refolgar não possa.

Sétimo não furtarás
se não for para beber,
virás-te assim confessar
e eu hei-de te absolver

Oitavo não desejarás
copo que seja pequeno,
tira-lhe bem a escuma,
para que se ponha moreno.

O nono não desejarás
a salada do pepino,
ela é mui fresca de Verão,
carrega-lhe antes c’o vinho.

Estes dez mandamentos
se encerram em dois,
os soldados casados
têm chapéu como os bois”.

Nota: O Padre Firmino publicou a sua obra sobre Vinhais em dois volumes, o primeiro em 1927 e o segundo e último em 1938. Em 1987, a Câmara Municipal de Vinhais fez uma reedição em fac-simile dos dois volumes, da qual não sei se ainda haverá exemplares.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

António Sérgio, História: a busca de um método!


António Sérgio publicou pela primeira vez o seu texto Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal em 1941, há portanto 71 anos. O autor iniciou a obra com as “Divagações Proemiais ao jovem leitor sobre a atitude mental que presidirá a este ensaio”. Tentando ilustrar o conceito de História de António Sérgio, extraem-se daqui os seguintes trechos:

“Não tiro da História uma «lição moral», tal como a concebia um Oliveira Martins, e não vou a ela para lhe pedir exemplos: tomo-a como um meio dos mais adequados para nos familiarizarmos com os casos da nação presente, com as necessidades e os problemas do Portugal de agora. Penso no agora, - e na tua acção. O deixarmos aos mortos o enterrar os seus mortos e o seguirmos «avante para além dos túmulos» (como aconselhava um Goethe) é hoje mais necessário do que nunca o foi.
Para tais objectivos, serão estas páginas como que a busca de um método, como que a investigação de uma rota. Outros mais aptos farão um dia o que neste compêndio se prenunciará apenas - e imperfeitissimamente; por isso, se vires qualquer frase no decorrer do livro que pareça apresentar-se como afirmação segura, e sem a infinita humildade que condiz com a obra, faz-me tu a justiça de querer admitir que tão-só a palavra me não foi fiel. (…)
Na multidão dos factos que os historiadores referem, fiz a escolha e a ordenação que se me afigurou mais útil: e isso com o intuito de suscitar em ti a tendência a encarar o viver de outrora à luz do sociólogo e do moralista crítico, do político progressivo e do reformador social, e com o gosto de pensares sobre a história Pátria, de examinares hipóteses a seu respeito. Por isso mesmo, procurarei levar-te (quanto for possível) ao contacto directo com os testemunhos históricos que me parecerem especialmente significativos, e merecedores por isso de ponderação e de crítica (prescindindo aliás de anotações eruditas, dado o carácter popular do ensaio). (…)
O mundo das ideias, para os indivíduos cultos, é bem menos de certezas que de problemas. O mais que podemos, frequentissimamente, é enunciar um problema em mais claros termos; e como a solução de qualquer problema suscita o aparecimento de problemas novos, a consciência da problemática é o que caracteriza o sábio. O que mais vale divulgar não é pois a «ciência», não são os conhecimentos, não são as doutrinas: o que mais vale divulgar é o espírito científico, que vem a ser o mesmo que o espírito crítico. (…)
Quanto a mim, fico sempre em dúvida de que haja factos puros, qualquer dado absoluto, qualquer percepção sem ideias, - sem interpretação, sem «teoria». Quedo-me indefinidamente a interrogar-me a mim mesmo sobre se não é afinal uma concepção plausível a da autonomia construtiva do intelecto humano na edificação do mundo que nós concebemos; a de que a origem do pensar não está fora dele, e de que o seu ponto de partida já é pensar, a de que se não acha linha de limitação bem nítida entre o que apenas é «facto» e o que já é «teoria»; a de que o sujeito é inseparável do respectivo objecto, e correlativo a ele. (…)
O risco do naufrágio é necessário à rota. Não temamos o erro: que arriscarmo-nos ao erro é condição do acertar, e foi por isso mesmo que já se disse algures: «mostrai-me um cientista que jamais errasse, e mostrar-vos-ei um indivíduo que nunca descobriu cousa alguma». Pode o historiador, em circunstâncias tais, adoptar aquele dito do Poincaré: «adivinhamos o passado, como adivinhamos o futuro». Sim, disse-o bem o matemático: adivinhar o passado. É o que tentarei fazer. Claro está, todavia, que no conceito da História que inspirou este ensaio importa que submetamos ao juízo crítico - e às minúcias e pesquisas dos buscadores de fontes - todo rasgo audacioso de adivinhação, e que nos não metamos a adivinhar o pretérito para simples deleite da imaginação romanesca (como o fez tantas vezes um Oliveira Martins), senão que para buscar uma relacionação dos casos, - quer dizer, uma maior inteligibilidade do viver de outrora (…)”.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sarmento Pimentel, A revolução do Porto


No dia 3 de Fevereiro de 1927, faz hoje 85 anos, saiu à rua, na cidade do Porto, o primeiro movimento militar contra a Ditadura implantada em 28 de Maio de 1926. O movimento devia ocorrer simultaneamente no Porto e em Lisboa, mas na capital os revolucionários só conseguiram avançar a 7 de Fevereiro, o que foi fatal para ambos os focos da revolução. Outras tentativas se seguiriam a esta, mas nenhuma delas logrou obter êxito até ao 25 de Abril de 1974, 48 anos depois.
João Sarmento Pimentel, capitão demitido do Exército, participou na revolta e a ela se refere no livro que escreveu mais tarde no exílio brasileiro (1962) com o título Memórias do Capitão, do qual se transcreve o seguinte trecho:

“Foi poucos dias antes de eclodir a revolta que o General Simas Machado me procurou para tomar parte nela, alegando que, embora eu não tivesse comando e já há alguns anos afastado do serviço de quartel, a minha adesão traria para o lado dos revolucionários dois amigos meus com influência decisiva na guarnição militar de Lisboa - o major Ribeiro de Carvalho e capitão Francisco Aragão (…)
As démarches políticas, que eu não acompanhei nem quis conhecer, eram agora chefiadas por Jaime Cortesão e emperraram, não sei bem porquê. A data de 31 de Janeiro para o levante foi adiada para 3 de Fevereiro, começando no Porto sob a promessa de que 12 horas depois Lisboa se sublevava. Acreditando na promessa, aceitaram implicitamente a derrota.
Num desses dias que antecederam a revolução fui procurado por alguns oficiais que estavam na conjura e com eles discuti detalhes da luta para derrubar a ditadura militar, insistindo sempre no pronunciamento simultâneo de, pelo menos Porto e Lisboa (…)
Quatro anos depois, exilado e demitido do Exército, assim como Ribeiro de Carvalho e tantos outros que, como o pobre de mim, andaram pela África e Flandres a defender a República e a Democracia, tiveram ocasião de me dizer que se haviam enganado, e que a revolução do Porto se perdeu pela falta de apoio imediato dos republicanos de Lisboa.
Desde então considerei a revolução perdida. Como última esperança ainda se mandou numa traineira a Lisboa Raul Proença e Camilo Cortesão para pedirem mais uma vez auxílio aos correligionários do Sul e também para os informar da situação em que nos encontrávamos: muita gente por enterrar, os hospitais atulhados de feridos e as munições de guerra e as de boca a acabarem-se.
O Governo aproveitou a diversidade de opiniões no seio dos políticos da oposição, e da indecisão daqueles que lhe arreganhavam os dentes, para estabelecer uma defesa forte em Lisboa e para concentrar as tropas de outras Regiões Militares à roda da cidade do Porto, nos lugares estratégicos que lhe garantissem a iniciativa do ataque às forças revolucionárias.
Não foi difícil aos neutros perceberem para que lado pendia a vitória e que o Governo estava senhor das Fábricas de Munições e dos Caminhos de Ferro. E como, além duma parte da tropa cujos Comandos havia escolhido à sua feição totalitária, também tinha nas mãos largas o Banco de Portugal, a ditadura ordenou o bombardeamento indiscriminado e intensivo.
Dois dias depois o comando revolucionário pedia um armistício e Lisboa... revoltou-se!
Nós os do Porto, chamámos àquele levante tardio de Lisboa, a "Revolução do remorso".
É claro que a ditadura, podendo bater os seus inimigos, primeiro um e, depois deste vencido, o outro esmagou este retardatário impiedosamente.
Deu-se até ao esporte salazarista de andar a caçar a tiro, nas ruas de Lisboa, os republicanos tresmalhados, como quem caça coelhos”.

Nota pessoal: Tive o privilégio de acompanhar o conselheiro da Revolução, António Marques Júnior a S. Paulo, em 1982, para levarmos as estrelas de general ao capitão Sarmento Pimentel, depois da sua promoção decretada pelo Conselho da Revolução.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

João Chagas, Os deportados do 31 de Janeiro


João Chagas escreveu, em 31 de Outubro de 1910, já fez portanto 101 anos, uma Carta com o título “Carta sobre a responsabilidade do Partido Republicano perante a acção popular”, em que recorda a forma como os presos do 31 de Janeiro foram tratados, antes da deportação de muitos deles para Angola. São estes alguns trechos dessa Carta:

“Há vinte anos era fácil perseguir os republicanos, sem provocar por esse facto uma agitação pública, porque a ideia republicana não se tinha ainda apoderado da alma popular. A revolução do Porto foi sufocada e o povo viu sem revolta partir os revolucionários para a deportação e o exílio. Do Tejo abalaram numa manhã para a África dois navios cheios deles, e o coração de Lisboa não pulsou por isso com mais força. (…)
Antes de ser mandado para Angola, na leva de deportados de que fiz parte, passei um longo mês a bordo do couraçado Vasco da Gama, no Tejo, e fui como todos os meus companheiros, objecto de uma viva curiosidade por parte desta população de Lisboa, que não se recordava já da sua última revolta e nunca vira um revoltado a valer. Assim um numeroso povíléu foi durante esse mês a bordo do Vasco da Gama ver, com os seus olhos, esses bichos raros, que éramos nós. Por ali passaram milhares de indivíduos, mas - com tristeza o reconheci - não eram republicanos, não eram nada! (…)
No meio dessa multidão, os republicanos que ali iam para nos testemunhar a sua solidariedade, eram apenas alguns, e a todos conhecíamos pelos seus nomes. Eram o que nós então chamávamos o partido.
Uma manhã fomos levados de bordo do Vasco da Gama para bordo do Cazengo. Não nos preveniram sequer, e assim nós não pudemos dizer um último adeus aos nossos. Nos lanchões que nos levaram rio abaixo até o Cazengo, que nos esperava em Paço de Arcos, íamos comprimidos como reses. A manhã estava linda e o panorama da cidade desenrolava-se aos nossos olhos como uma última visão da pátria, do lar, da família, da vida feliz. «Adeus!, adeus !», gritavam todos agitando os braços enquanto os lanchães cortavam a água deixando Lisboa para trás; mas Lisboa não respondia. Lisboa dormia ainda, indiferente a nós, que ali íamos para um destino desconhecido, e indiferente ao nosso destino. Então, como se a quisessem acordar do seu sono e da sua indiferença, os deportados entoaram num coro estridente uma Marselhesa que nunca terá sido cantada por vozes mais sufocadas pelas lágrimas, mas esse clamor pungente perdeu-se no ar, como o próprio anseio das suas almas precursoras. Lisboa não acordou.

Às armas, cidadãos!

Em vão! Em vão! Lisboa dormia. Dormia ainda, para só acordar muito tarde".

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Basílio Teles, A Revolução Republicana do Porto


No dia 31 de Janeiro de 1891, faz hoje 121 anos, saiu à rua, na cidade do Porto, um movimento revolucionário republicano com intenção de derrubar o governo e a monarquia e implantar a república; foi dominado em poucas horas pelas forças governamentais. Este primeiro movimento republicano culmina uma época de grande tensão social e política, iniciada com as comemorações camoneanas do centenário de 1880, e cujo ponto alto foi o ultimato inglês de 11 de Janeiro de 1890. A revolução republicana do Porto, ou o 31 de Janeiro, ficaria como prólogo do 5 de Outubro de 1910, que quase 20 anos depois implantou a República.

Basílio Teles relembra o movimento no seu livro Do Ultimatum ao 31 de Janeiro – Esboço de História Política, publicado em 1905, de onde se retira o seguinte trecho:

“O movimento do Porto tem (...) uma fisionomia própria, que não permite confundi-lo com os casos históricos, consciente ou inconscientemente, imitados pelos chefes. Essa fisionomia consiste na preponderância do elemento popular nos episódios mais salientes do dia. Excepção feita de meia dúzia, cujo carácter burguês é manifesto, as figuras que nele desempenham papel activo pertencem, incontestavelmente, às camadas populares. (…)
Em 31 de Janeiro, homens notáveis pela posição social ou pelo talento entram por minoria infinitésima; oficiais de graduação elevada, nem um aparece a dar sequer uma adesão platónica; e de patentes modestas, contam-se apenas três. Quem prepondera, quem se mostra no primeiro plano, quem se exibe em relevo poderoso, são os paisanos desconhecidos que investem com a porta do quartel de Infantaria 18, e os sargentos e soldados anónimos que, horas depois, na Rua de Santo António e na Câmara replicam ao fogo da Guarda Municipal. Pela primeira vez no nosso país, a multidão obscura que vegeta nos quartéis ou se agita vagamente nos bairros da miséria veio gritar francamente, à luz do dia, que está farta de monarquia e de Braganças. O que não tiveram a coragem de balbuciar os homens de 1820, 1836 e de 1846, apesar de não lhes faltarem motivos para depor dinastas cobardes, perjuros e traidores, disse-o o povo do Porto singelamente, em linguagem clara e rude, no dia 31 de Janeiro de 1891. Coube-lhe nesta data notável nos anais da nossa pátria, a honra de ser o intérprete dos sentimentos de todo o povo português, proclamando perante a História, em voz audível, o que a maioria dos cidadãos só em confidência se atrevia a querer. A revelação do segredo íntimo dos corações patriotas e viris, feridos no seu orgulho e nos seus mais caros afectos pela fuga ignóbil do rei e dos partidos conservadores no conflito anglo-luso - tal, em poucas palavras, a significação do movimento do Porto, desfecho lógico, portanto, do 11 de Janeiro”.

sábado, 28 de janeiro de 2012

José Relvas, 28 de Janeiro, a revolução frustrada!


No dia 28 de Janeiro de 1908, faz hoje 104 anos, ocorreu em Lisboa uma tentativa revolucionária frustrada contra a Monarquia e o governo de João Franco, um prelúdio da revolução republicana de 5 de Outubro. Estes acontecimentos foram lembrados por José Relvas nas suas Memórias Políticas, da seguinte forma (1º volume, pp. 53-54):

“Precipita-se a marcha da ditadura para a tragédia. Hintze Ribeiro morre atacado de súbita congestão no Cemitério do Alto de S. João, na realidade minadas as suas energias pelos imensos desgostos que lhe tinha infligido a realeza. O juiz Veiga, sustentáculo da acção monárquica contra os republicanos, abandona o lugar de juiz de Instrução, depois da explosão das bombas na Calçada da Estrela - o primeiro alarme da existência das associações secretas.
D. Carlos, não podendo deter-se na batalha travada com os velhos partidos políticos, acaba por se divorciar de todos na entrevista realizada em Cascais com Joseph Galtier, redactor do Le Temps. Sucedem-se novas explosões de bombas (Carrião), e os decretos de Novembro, que são o prelúdio da lei de 31 de Janeiro, já muito ameaçadores para a segurança individual dos chefes republicanos.
O movimento de 28 de Janeiro (1908), insuficientemente organizado e deploravelmente malogrado, determina a fase delirante. Presos João Chagas, António José de Almeida, Afonso Costa, Alfredo Leal e França Borges, republicanos, e os dissidentes Egas Moniz, visconde da Ribeira-Brava e João Pinto dos Santos, o ditador prepara a prisão de outros chefes e a deportação de todos os que pudessem ser-lhe estorvo e ameaçar-lhe até a vida.
A exaltação popular é então enorme! João Franco, esperado por bandos de conspiradores, ilude a perseguição procurando todas as noites refúgio em diversas casas. A situação torna-se cada vez mais violenta, até que o decreto de 31 de Janeiro entrega ao Governo, discricionariamente, todos os cidadãos suspeitos de hostilidade ao Governo, ao rei e ao regime. D. Carlos sente a gravidade excepcional desse momento. Hesita na assinatura do decreto que lhe é apresentado em Vila Viçosa como garantia de segurança pessoal e de vida para as instituições, parte para Lisboa na tarde de 1 de Fevereiro, alucinado por previsões as mais terroristas, e na carruagem em que cai morto pelas balas de Alfredo Costa encontra-se o revólver, com que se teria defendido de agressão que não fosse tão brusca e de morte que não fosse tão instantânea”.

Nota 1: Ver em Aquilino Ribeiro, Um escritor confessa-se - memórias, a descrição da explosão do Carrião e os acontecimentos desta época.
Nota 2: Parecendo não existir um portal dedicado a José Relvas, ver as melhores informações em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Mascarenhas_Relvas

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Jaime Cortesão, A História e o Historiador


Jaime Cortesão publicou o seu livro Os Factores Democráticos na Formação de Portugal em 1930, há portanto 82 anos. O texto introdutório do estudo chama-se “A História e o Historiador”, e aí se define o conceito de História do seu autor. São dessa introdução, os seguintes trechos:

“A história de cada povo, humildemente escrita, quer na glória dos seus feitos e virtudes, quer na contrição dos seus erros e defeitos, das suas Aljubarrotas e dos seus Alcácer-Quibires, não pode e não deve ser a contemplação estática do passado, mas um impulso, uma promessa, um pacto de vida para o futuro. O fim da história, considerada como ciência humana e humanística, não é uma regressão ao passado, mas uma explicação do presente, uma arte de prever e uma promessa de excedência. (…)
É costume dizer-se (…) que não há história sem documentos. Sem dúvida. Mas com a seguinte reserva: não há documentos sem história. Queremos dizer: as fontes do passado devem ser lidas à luz da cultura geral que as ditou e dos interesses, confessados ou ocultos, que podiam mover a pena do autor e obrigá-lo a deformar ou a calar a verdade. Buscar e descobrir documentos é excelente. Saber interpretá-los é mais e melhor. Para esta segunda parte do trabalho da obra histórica torna-se indispensável não só conhecer a vida, mas possuir um sentido e uma filosofia da vida. Durante várias décadas nos demos com igual paixão a essas duas tarefas. Várias décadas, repetimos. (…)
Durante as nossas demoradas e repetidas estadas em Espanha, França, Itália, mais de passagem em Bruxelas e Londres, e muito longamente no Brasil, fomos assíduos frequentadores de arquivos. Vivemos também intensamente a vida, o que não ensina menos que os livros e os documentos. Possuiu-nos em todos os tempos a paixão do investigador, quer na clausura e silêncio das bibliotecas, quer no teatro e tumulto do mundo exterior.(…)
Destarte nos debruçámos longos anos sobre catálogos, códices, pergaminhos e velhos papéis ou mapas delidos e desconhecidos, mas buscando sempre lobrigar por detrás do documento seco a fonte viva dos indivíduos e das multidões, que afundaram os alicerces instáveis da história e acenderam a cambiante de luz própria e fugidia, em que os antepassados desenharam seus vultos. Preocupou-nos sempre e conjuntamente a face da vida extinta do passado e a da vida do presente, para explicarmos uma pela outra. E quanto mais tentávamos compreender a segunda, mais descobríamos na sua estrutura as estratificações indeléveis da primeira.
A história, vista a esta luz, é e deve ser uma escola de formação moral. A averiguação do facto, na sua identificação real, acarreta consigo o amor da verdade e a repulsa da mentira; ensina a relatividade do humano e o respeito pela diversidade alheia; e torna-se uma lição permanente de compreensão e dignidade”.