quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Alexandre Herculano, Dos Extremos!
A propósito da Constituição de 1838, escreveu Alexandre Herculano, nesse mesmo ano, há portanto 173 anos, alguns textos depois reunidos nos Opúsculos. Um deles, intitulado “Dos Extremos”, termina assim:
(...)
Que deve portanto fazer um país quando possui a liberdade?
Abraçar-se com ela, não querer nada mais, nem nada menos do que ela, porque o mais e o menos conduzem igualmente à escravidão; negar os ouvidos tanto a sugestões dos absolutistas, como às pomposas, lisonjeiras, e traidoras frases dos aventureiros, tribunas de encruzilhadas, e ciganos políticos, que lêem a buenadicha às nações. Amestrado pela experiência alheia, e talvez também pela sua própria, esse povo já desapertado de grilhões, e descercado de inimigos, deve até repelir com indignação, como altamente suspeita, toda a oferta que se lhe fizer de mais liberdade. É por aí que a conjuração permanente dos déspotas muitas vezes introduz a peste, que depois se conhece donde veio; mas já não tem remédio; cuida-se introduzir na cidade um paládio de salvação, para lhe dar entrada se rasgam os muros antigos, os votos de toda a plebe o saúdam; mas dentro daquele paládio vêm escondidos os soldados e armas dos inimigos, e a destruição do império!
Releiam isto os que são capazes de o entender, preguem-no, expliquem-no, embebam-no nos ânimos públicos, trabalhemos todos na felicidade alheia, que em política é o único modo de conseguir a própria.
Se me é permitido, deixo, como pessoal, esta mensagem final de Alexandre Herculano para o ano de 2012: "Trabalhemos todos na felicidade alheia, que em política é o único modo de conseguir a própria".
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Eça de Queiroz, O Partido Reformista!
Em 1871, há portanto 140 anos, Eça de Queiroz escreveu o seguinte texto, a propósito do aparecimento do partido reformista, texto depois incluído em Uma Campanha Alegre (1890):
“O partido reformista apareceu um dia, de repente, sem se saber como, sem se saber porquê. Era um estafermo austero, pesado, de voz possante. Ninguém sabia bem o que aquilo queria. Alguns diziam que era o sebastianismo sob o seu aspecto constitucional; outros que era uma seita religiosa para a criação do bicho-da-sede. Corriam as mais desvairadas opiniões. Apresentava-se tão grave, tão triste, tão intransigente, que no Chiado afirmava-se ser uma personagem da história romana – empalhado!
Ninguém se aproximava dele, no meio de imensa impressão que causava nos moços de fretes. Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a tocar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.
- Senhor – disseram -, espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um princípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
- Economias! – disse com voz potente o partido reformista.
Espanto geral.
- Bem! E em moral?
- Economias! – bradou.
- Viva! E em educação?
- Economias! – roncou.
- Safa! E nas questões de trabalho?
- Economias! – mugiu.
- Apre! E nas questões de jurisprudência?
- Economias! – rugiu.
- Santo Deus! E em questões de literatura, de arte?
- Economias! – uivou.
Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
- Que horas são?
- Economias! – rouquejou.
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
- De quem gosta mais, do papá ou da mamã?
- Economias! – bravejou.
Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no então sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente…
- Economias! – gania.
Foi necessário reconhecer, com mágoa, que o partido reformista não tinha ideias. Possuía apenas uma palavra, aquela palavra que repetia sempre, a todo o propósito, sem a compreender. O partido reformista é o papagaio do Constitucionalismo”.
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sábado, 17 de dezembro de 2011
Ramalho Ortigão, Passemos à Política!
Ramalho Ortigão incluiu no volume das Farpas relativo aos meses de Junho e Julho de 1882, faz portanto 129 anos, um texto que começa assim: “Passemos à política”! Eis alguns pequenos trechos:
“É pela mais justa e pela mais completa compreensão do seu destino social que tanto os indivíduos como os povos se disciplinam, se fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal, a incapacidade governativa produziu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao País a noção histórica do seu destino;
(…)
Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas questões graves de que o Parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos à coisa a que, no calão oficial em que tem degenerado a língua pátria, se chama - a questão da fazenda.
Reunidas as Câmaras e aberto perante elas o orçamento do Estado, começa-se invariavelmente por constatar, num trémulo elegíaco de sinfonia fúnebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos três Governos, a quem a Coroa alternadamente adjudica a mamadeira do sistema, encarrega-se de explicar aos taquígrafos essa ocorrência - aliás desagradável, cumpre dizê-lo - mas de que ele, Governo em exercício, não tem culpa. A responsabilidade cabe ao Governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incúria. (…)
Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se um novo empréstimo. No ano seguinte averigua-se por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao País, e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os juros dos empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado.
Pela parte que lhe respeita, o País espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.
No entanto, o problema de aumentar a riqueza - único meio de prover aos encargos - é considerado como absolutamente estranho à questão da fazenda. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não aumenta senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha ligado aos progressos da indústria. (…)”.
Ler a crónica completa nas páginas 10-19 de:
http://purl.pt/256/3/pp-7311-p_1882/pp-7311-p_1882_item3/pp-7311-p_1882_PDF/pp-7311-p_1882_PDF_24-C-R0096/pp-7311-p_0000_capa-98_t24-C-R0096.pdf
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Abade de Baçal, Liceu Nacional de Bragança
Este post é dedicado aos meus amigos e colegas, antigos alunos do Liceu Nacional de Bragança.
Em 1911, há portanto 100 anos, o Abade de Baçal (Francisco Manuel Alves) publicou no Porto o 2º volume das suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, em que incluiu o seguinte texto relacionado com o Liceu Nacional de Bragança:
"Liceu Nacional de Bragança
O sistema constitucional veio desorganizar as bases da instrução vigentes no período anterior, e para obviar a estes inconvenientes criaram-se os liceus nacionais nas capitais de distrito por decreto de 17 de Novembro de 1836, o qual mandava extinguir nos respectivos distritos as cadeiras de grego, latim, retórica, moral, aritmética, geometria, história e geografia à proporção que os liceus se fossem estabelecendo, deixando contudo continuar as de gramática portuguesa e latina nas capitais das antigas comarcas que ao tempo não o eram de distrito, quando fossem relativamente importantes em população.
(…)
Por decreto de 14 de Novembro de 1860 foi criada em cada um dos liceus nacionais de Castelo Branco, Bragança e Portalegre uma cadeira de língua francesa e inglesa (Diário do Governo de 21 de Novembro de 1860).
(…)
O Liceu de Bragança começou a funcionar no antigo mosteiro de S. Bento em harmonia com a proposta apresentada na sessão de 9 de Março de 1853 por José de Moraes Faria e Carvalho, deputado por Bragança (Ibidem, de 10 de Março de 1853); daqui passou para uma casa particular e depois para o antigo hospital militar e capela adjunta de S. João de Deus, onde hoje se encontra (Correio Brigantino de 14 de Junho de 1906), que havia sido mandado fazer por el-rei D. Pedro II.
(…)
O decreto de 8 de Julho de 1857 manda ao governador civil de Bragança que apenas se realize a mudança do hospital militar para o extinto convento de S. Francisco, onde hoje se encontra, tome posse do edifício para ser nele colocado o Liceu.
Na sessão de 24 de Março de 1863, Albino Augusto Garcia de Lima, deputado por Bragança, interpelando o ministro dizia que pedira, há mais de quatro anos, o edifício que servira de hospital militar para nele estabelecer o Liceu, que de nada se fizera caso: continuando este estabelecimento a funcionar numa casa particular pela qual se pagavam de renda 96$000 réis, quando o orçamento da obra de adaptação do edifício montava em 1:200$000 réis.
Era o revoltante nepotismo do bem particular antepondo-se ao geral!”.
Nota: Este texto pode ser lido nas páginas 375 a 379 do II Tomo das Memórias (…), reedição do Museu do Abade de Baçal, Bragança, 1982.
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terça-feira, 13 de dezembro de 2011
João Chagas, Um passeio em Paris
No dia 13 de Dezembro de 1914, faz hoje 97 anos, João Chagas, embaixador de Portugal em Paris, escreveu o seguinte no seu Diário:
"13 de Dezembro
Domingo. Céu nublado. Chuva. Almocei no Taverne Royale, com pouca gente, e à tarde dei uma volta pelos boulevards. Muita gente ao longo dos passeios, passando diante dos terraços dos cafés que foram restabelecidos, mas gente daquela que não saiu de Paris, - essa multidão lenta, mole, arrastada, de braço dado e levando crianças pela mão que é a multidão de Paris aos domingos. Aqui e ali soldados de todas as armas, pelo braço de mulheres, que parecem manifestar por eles uma ternura especial. A indústria dos bilhetes postais desenvolveu-se de um modo considerável. (…) Os que chamam de preferência a atenção do público são os postais satíricos em que o kaiser e os a1emães são criticados. A figura do kaiser aparece sob todas as formas - de besta do Apocalipse, de touro, de serpente, de porco, sobretudo de porco, que para os franceses é o animal desprezível. (…) O postal típico é o postal fotográfico em que um soldado ferido, que é representado por um belo e jucundo rapaz, revira os olhos para uma dama da Croix Rouge, que o socorre e que parece uma cocotte. Mas o que me atrai a atenção são as vitrines dos confeiteiros onde se exibem caixas e cestos de bombons de chocolate, nos quais leio com surpresa este dístico - Pour nos soldats. O quê! Os soldados de hoje comem bombons de chocolate! O que diria Napoleão? Talvez isso explique porque os franceses avançam tão pouco na região das trincheiras. Há porém melhor. Na vitrine dos escritórios do Daily Mail estão expostas umas caixas também destinadas aos soldados e contendo não só alguns objectos úteis, tais como um cachimbo e um pacote de tabaco, uma vela de estearina, um salpicão, etc., mas igualmente um jogo de dados, um baralho de cartas, um romance de Abel Hermant e – ó espanto! - um rolo de papel para water-closet. Tais cuidados despertam no meu espírito graves inquietações”.
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sábado, 10 de dezembro de 2011
Alves Redol, Há revolução na Alemanha!
Em Novembro de 1972, fez portanto 39 anos, foi publicado o último romance de Alves Redol (1911-1969), Os Reinegros, cuja acção se situa desde os últimos anos da Monarquia até aos confrontos de Monsanto, em 1919. Eis dois dos últimos trechos:
“As greves parciais não cessavam e o povo começava a cansar-se. Entre os salários e o custo da vida, aumentava o abismo, e só um grande movimento total poderia opor-se à ganância de uns tantos. Promoviam-se assembleias nos sindicatos, para ordenar os esforços de todos, realizavam-se comícios de exaltação e propaganda da greve geral. As prisões enchiam-se. A pneumónica alastrava, numa ceifa aterradora. Os cadáveres ficavam à porta dos cemitérios, esperando vez. Famílias inteiras desapareciam, aldeias despovoavam-se. Não bastavam os transportes usuais para carregar os mortos. Era ainda o luto da guerra.
Os sinos das igrejas calavam-se, para que os doentes não dessem conta da mudança trágica da morte. Faltavam médicos - não havia remédios. Nos campos de batalha os soldados caíam - o fim era uma interrogação, preocupava todos.
QUANDO ACABARÁ?
(…)
*
Houvera o alarme, mas três dias depois a notícia confirmava-se. Às dez horas da manhã todos os navios salvavam com vinte e um tiros. Os sinos das igrejas voltaram a repicar; as sereias dos navios e das fábricas encheram a cidade daquela nova, enquanto as ruas transbordavam de uma multidão exaltada, que via no fim da guerra o nascer de uma outra vida.
- O armistício! O armistício!
VIVA A FRANÇA! VIVA A INGLATERRA!
VIVA A REPÚBLICA!
O Século e o Notícias publicavam edições extraordinárias.
Grupos cantavam pelas ruas o hino nacional e todos confraternizavam do mesmo entusiasmo - burgueses e pés-descalços, velhos e crianças! Abraçavam-se desconhecidos; criavam-se amigos num olhar e num viva. Os cafés, as tabernas e os restaurantes enchiam-se de gente que vitoriava o acontecimento com ceias. Os pobres iam para as bichas receber o bodo; nos mercados as vendedeiras desfaziam-se, por qualquer preço, do que tinham nos lugares.
VIVA A FRANÇA!
Havia bandeiras pelas janelas e nas mãos de populares que percorriam a cidade, roucos de gritar e exuberantes de júbilo.
- Há revolução na Alemanha. Acabou-se tudo.
As mulheres choravam de alegria, consolando as que tinham os maridos ou os filhos mobilizados. E as crianças, com carapuços de papel na cabeça, imitavam os cornetins das marchas militares, marcando passo, em filas, à voz de generais que escolhiam entre os que tinham espada.
- Acabou a guerra!”.
Ver aqui o essencial sobre Alves Redol: http://www.alvesredol.com/intro.htm
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
José Rodrigues Miguéis, Abaixo o Ministério!
Em 1975, há portanto 36 anos, José Rodrigues Miguéis publicou o seu romance “O Milagre segundo Salomé”, cujo ambiente se situa no período que conduziu ao derrube da I República, em 28 de Maio de 1926. No “Entremez II”, com o título “Abaixo o Ministério!”, o autor, explicando o momento histórico, escreve o seguinte:
“Em tudo o mais divergente, a Nação pôs-se de acordo num ponto: estamos em crise. Crise profunda, orgânica, ancestral. Cada qual dá-lhe porém um conteúdo específico diverso: para uns ela é apenas política, para outros económica e financeira, ou meramente pedagógica e moral. Há mesmo quem pense que a Nação nasceu em crise, ou de uma crise: aleijada. Segundo este, ela vem das Navegações & Conquistas; para aquele, da Aliança Inglesa. Atribuem-na uns ao Absolutismo, aos Jesuítas e à Inquisição, outros responsabilizam dela Pombal, o Liberalismo, a Maçonaria e o Bolchevismo. Ou até a sífilis endémica. Diz um que as Colónias são o cancro da grei, outros proclamam que elas são a reserva do nosso futuro. Chovem panfletos, ribombam polémicas, há pugilatos ao Chiado, comichões teóricas, orgânicas, temperamentais. Um delírio de reforma galvaniza a alma nacional, ou o que passa por sê-lo. Tudo caminha mal: a moeda, as colheitas, os impostos, a chuva, a seca, o parlamentarismo, a balança comercial, o ensino, os tabacos, as pragas de gafanhotos, as artes gráficas, e outros aspectos crónicos da existência colectiva. Felizmente descobriu-se há dias, na Sociedade de Geografia, que somos uma Potência Colonial. (Algum dia lhe chamarão Império.)
Em todo o caso, para sair da Crise, bastará uma destas simples soluções: equilibrar o Orçamento, derrubar o ministério, ou refazer a História. Sim, já ninguém atura este governo. A ideia de que ele está no poleiro há mais de seis meses não nos deixa dormir em paz. Urge derrubá-lo, ainda que seja pela força, uma vez que (textual: a frase é do Redentor) «o Congresso que para aí está, divorciado do Povo, lhe assegura a perpétua ditadura parlamentar». Intelectuais, imprensa, partidos, funcionários, lavradores, proprietários, operariado, ricos e pobres - todos contra o governo. (…)
Para tudo ser unânime, o ministério entra em conflito consigo mesmo e ameaça desintegrar-se. Até a maioria parlamentar que o sustenta parece rebelada. Todos apelam para o chefe do Estado, que além de não ter poderes nenhuns, está de cama com a influenza. «Será a influenza... espanhola?», sibilam línguas viperinas. É um trocadilho de mau gosto, mas que querem, receia-se o iberismo.
A democracia terá perdido a coragem dos seus fins?
Ainda estão vivas na memória de todos as privações e dores da grande guerra, as epidemias, a confusão que ela gerou. Há desigualdades e injustiças. Ao lado de fortunas fabulosas, rapidamente acumuladas, há miséria e há fome, há desemprego, e morre gente sem assistência. Temos as furnas de Monsanto e os bairros das minhocas, as gaiolas de greda que desabam a um sopro de vento. (Os construtores desaparecem.) Ao lado da ociosidade e do parasitismo, temos o trabalho antieconómico, semi-servil, o salário abaixo de todos os padrões, a subnutrição, o analfabetismo. No dizer do próprio chefe do governo, o país continua a saque, nas mãos de salteadores internos e internacionais. E que há-de ele fazer na sua total impotência?
A balança comercial e a de pagamentos estão cronicamente desequilibradas; o Orçamento geme ao peso de despesas improdutivas: e não temos exército, nem esquadra, nem marinha mercante, nem estradas, nem escolas, nem trigo, nem combustíveis, nem minérios, nem investigação científica, nem juízo: não temos nada. (…)”.
Ver uma análise muito interessante desta obra em: http://hasempreumlivro.blogspot.com/2008/01/o-milagre-segundo-salom-de-jos.html

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